Sons do silêncio



O som do silêncio

Devagar, como se tivesse todo o tempo do dia,

descasco a laranja que o sol me pôs pela frente. É

o tempo do silêncio, digo, e ouço as palavras

que saem de dentro dele, e me dizem que

o poema é feito de muitos silêncios,

colados como os gomos da laranja que

descasco. E quando levanto o fruto à altura

dos olhos, e o ponho contra o céu, ouço

os versos soltos de todos os silêncios

entrarem no poema, como se os versos

fossem como os gomos que tirei de dentro

da laranja, deixando-a pronta para o poema

que nasce quando o silêncio sai de dentro dela.

Nuno Júdice

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